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Flávio Josefo

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Em resumo, tendo atravessado séculos até os nossos dias, a história do povo judeu através do registro de Flávio Josefo permanece como um fiel relato dos acontecimentos contidos nas Escrituras. O historiador cita personagens, tais como Pilatos, os Agripas e os Herodes, e inúmeros pormenores do mundo greco-romano. O historiador aborda em seus estudos a história judaica, principalmente o período que marcou a segunda maior tragédia dos filhos de Abraão – a destruição do Santo Templo no ano 70 de nossa era.


Historiador de origem judaica Flávio Josefo. Judeu, cidadão romano, escreveu em grego e sua obra é de suma importância para o estudo das relações entre Roma e os judeus no século I.

Biografia

Historiador Josefo
Nasceu provavelmente em Jerusalém, por volta de 37, tinha sangue nobre por parte de sua mãe, descendente da casa real hasmoneana e de respeitada linhagem sacerdotal sacerdotal por parte de seu pai, Mathias. Recebeu excelente educação, a julgar pela grande familiaridade com os clássicos gregos que exibe em seus escritos. Seu nome original era, provavelmente, Yosef ben Matityahu ou Yosef bar Matityahu — "José, filho de Matias". Aos 19 anos ligou-se aos fariseus, aparentemente por interesse em sua influência.

Em 64, na época de Nero, viajou para Roma a fim de obter a libertação de alguns amigos sacerdotes, aprisionados pelos romanos. Seu navio naufragou, mas foi resgatado e conseguiu obter a ajuda da Imperatriz Popeia Sabina e do influente Epafrodito, liberto de Nero, que intercederam por seus amigos. De volta a Jerusalém, como um dos chefes militares da Galileia, combateu os romanos durante a Primeira Revolta da Judeia (AD 66), mas foi capturado em julho de 67, durante o cerco à fortaleza de Jotapata, em circunstâncias pouco esclarecidas. Prisioneiro de Vespasiano e de seu filho Tito, que comandavam as forças romanas, Josefo logo se tornou seu protegido, mas só foi libertado em 69, quando Vespasiano tornou-se Imperador. Pouco depois, em 70, participou como negociador durante o cerco romano a Jerusalém, mas em vão: chamado de traidor pelos sitiados, testemunhou a conquista da cidade pelos romanos e a destruição do Templo.

Mudou-se para Roma em 71, quando recebeu a cidadania romana e, como liberto de Vespasiano, adotou o nome de Titus Flavius Josephus, pelo qual é conhecido atualmente. Recebeu terras na Judeia, mas continuou vivendo em Roma, sob a proteção dos Flavianos, onde escreveu todas as suas obras. Publicou uma autobiografia c. AD 100, na época de Trajano, e faleceu pouco depois.

Josefo casou-se três vezes. A primeira esposa não lhe deu filhos; divorciou-se dela em 70 e casou-se com uma judia de Alexandria, com quem teve dois filhos. Em 75 divorciou-se novamente, casou-se com uma judia de Creta e teve mais dois filhos.

Obras sobreviventes


Josefo escreveu A Guerra Judaica, em sete volumes, provavelmente em aramaico, entre 75 e 79; o texto original foi traduzido para o grego, com a ajuda de um tradutor, e publicado mais ou menos em 79. Antiguidades Judaicas, obra publicada c. 94, em 20 volumes, foi escrita diretamente em grego. Contra Ápio, em dois volumes, foi publicado em 97. A Autobiografia foi originalmente publicada como um apêndice à segunda ou terceira edição de Antiguidades Judaicas, c. 100.

Todos os escritos de Josefo chegaram até nós, praticamente na íntegra. Nenhum dos manuscritos conhecidos, porém, contém todas as suas obras. Os dois mais antigos parecem ser o Palatinus Graecus 14 (séc. IX-X, Biblioteca do Vaticano) e o Parisinus Graecus 1425 (séc. X-XI, Biblioteca Nacional de Paris).

A editio princeps do texto grego de todos os trabalhos foi publicada em 1544 em Basileia. Seguiram-na as edições de Genebra (1611 e 1634) e de Leipzig, em 1691. A primeira edição a levar em conta os erros dos manuscritos foram a de Hudson (Oxford, 1720) e a de Havercamp (Amsterdam, 1726), que serviram de base para a de Dindorf (Paris, 1845/1847). Após a edição de Bekker em 6 volumes (Leipzig, 1855/56), seguiu-se a de Benedict Niese (Berlin, 1887/94), ainda usada em nossos dias.

Várias traduções latinas antecederam a editio princeps. As duas mais antigas são a do século IV, atribuída a Rufinus, e a do século VI, encomendada por Cassiodoro; posteriormente, edições latinas foram publicadas em Augsburg (1470) e em Paris (1510), esta atribuída a um tal Hegesipo. Uma tradução latina corrigida foi publicada em Basel, em 1524.

Ainda não existe, em português, tradução de todas as suas obras.

Características


Traidor de seu próprio povo, filo-romano, escritor "oficial" dos imperadores romanos — a despeito desses rótulos, criados notadamente pelos eruditos do século XIX, Josefo não deixa de ser uma testemunha ocular e privilegiada de eventos cruciais para a história do Judaísmo antigo. Suas informações são de grande importância para contextualizar outras fontes, como por exemplo os Manuscritos do Mar Morto, de grande significado histórico e religioso. Sua obra também fornece muitas informações sobre importantes personalidades históricas, antigos costumes e acidentes geográficos. Muitos dados da história judaica posterior a -175 e do Cristianismo primitivo são conhecidos apenas através de seus escritos. Há, ademais, importantes resumos de obras perdidas, como a do egípcio Mâneton e do babilônio Beroso, ambas do séc. -III.

A despeito da ambiguidade política que sua biografia deixa entrever e das profundas relações de amizade com os romanos, Josefo nunca deixou de defender seus conterrâneos e procurou apresentar os judeus como um povo antigo, civilizado e devoto, cuja cultura era perfeitamente compatível com a cultura greco-romana.

Embora um tanto medíocre, do ponto de vista literário, do ponto de vista gramatical e estilístico o texto de Josefo é correto e até elegante. Nota-se, porém, que o grego não é sua língua materna.

Notas


Na Judeia Helenística e Romana floresceram três importantes classes ou "partidos politico-religiosos" (seitas seria talvez mais adequado): os fariseus, os essênios e os saduceus. Os fariseus tinham grande prestígio, existiram a partir do século -III e tornaram-se ferrenhos defensores da pureza das tradições judaicas, que seguiam ao pé da letra; os essênios existiram entre c. -150 e AD 100 e adoravam um só deus, criador e regente de todas as coisas, onipotente e onipresente; os saduceus surgiram c. -135/-105 e até o fim do século I eram predominantes; aceitavam tanto a cultura grega helenística como a dominação romana e não defendiam nem a lei oral e nem conceitos como a ressurreição, a imortalidade da alma e a crença na existência dos anjos.


Autobiografia 

1. Origem

Flávio Josefo nasceu em Jerusalém, em 37 ou 38 d.C., de uma rica família da aristocracia sacerdotal asmoneia. Eis como descreve em sua Autobiografia, com orgulho, sua origem aristocrática, para "desmanchar as calúnias de meus inimigos”:

“Como eu tenho a minha origem numa longa série de antepassados de família sacerdotal, eu poderia vangloriar-me da nobreza do meu nascimento, pois cada nação, estabelecendo a grandeza de uma família, em certos sinais de honra que a acompanham, entre nós um das mais notáveis, é ter-se a administração das coisas santas. Mas eu não sou somente oriundo da família dos sacrificadores, eu sou também da primeira das vinte e quatro linhas que a compõem e cuja dignidade está acima de todas. A isso eu posso acrescentar que, do lado de minha mãe eu tenho reis, entre meus antepassados. O ramo dos asmoneus, de que ela é proveniente, possuiu durante um longo tempo, entre os hebreus, o reino e a suprema sacrificadura.

[Nasci de] Matias no primeiro ano do reinado do imperador Caio César [o imperador romano Calígula, que reinou de 37 a 41 d.C.]. Quanto a mim, tenho três filhos, o primeiro dos quais, chamado Hircano, nasceu no quarto ano do reinado de Vespasiano [imperador romano que governou de 69 a 79 d.C.]. O segundo chama-se Justo, nasceu no sétimo e o terceiro, de nome Agripa, no nono ano de reinado do mesmo imperador”.

Flávio Josefo recebe uma formação judaica sofisticada. Diz ele em sua Autobiografia:

“Fui educado desde minha infância no estudo das letras, com um dos meus irmãos de pai e mãe, que tinha como ele o nome de Matias. Deus deu-me bastante memória e inteligência e eu fiz tão grande progresso que tendo então só catorze anos, os sacrificadores e os mais importantes de Jerusalém se dignaram perguntar minha opinião sobre o que se referia à interpretação das leis”.

Segundo Mireille Hadas-Lebel, “a natureza do ensino recebido [por Josefo] não deixa nenhuma dúvida: trata-se de um ensino puramente religioso, baseado na Torá. De fato, julga-se que os livros sagrados contêm o saber essencial ao homem para que conduza sua vida neste mundo. Neles, ele pode encontrar um código cultural, moral, social, político, assim como a história do universo e das gerações humanas, todas as coisas que ele sabe dever vincular a uma divindade única e onipresente”.

2. Formação

Aos 13 anos entra em contato com as três principais tendências do judaísmo do século I d.C., desenvolvidas pelos saduceus, fariseus e essênios, mas ainda não decide abraçar nenhuma delas.

“Quando fiz treze anos desejei aprender as diversas opiniões dos fariseus, dos saduceus e dos essênios, três seitas que existem entre nós, a fim de, conhecendo-as, eu pudesse adotar a que melhor me parecesse. Assim, estudei-as todas e experimentei-as com muitas dificuldades e muita austeridade”.

Observa João Batista Madeira que “num ambiente como o que se vivia então é de se esperar que houvesse uma preocupação muito grande com a espiritualidade. Ainda mais em se tratando de um povo cuja religião era determinante para os assuntos tanto sociais quanto individuais. A pluralidade de opções era outra característica marcante do povo judeu daquela época. Não havia autoridade suprema a nível de interpretação dos escritos sagrados, nem da tradição oral e nem com relação à moral (...) Para entender a pluralidade de escolas espirituais é preciso saber que cada uma reivindicava para si a autenticidade na vivência fiel da Lei. Numa religião sem uma autoridade central e legitimadora em si e sem dogmas fica uma certa amplitude de interpretação o que garante a grupos que podem até se opor, desfrutar da mesma herança religiosa”.

Mas, não satisfeito com esta experiência, Josefo vai viver três anos, dos 16 aos 19 anos de idade, junto a um asceta chamado Bano, que

“vivia tão austeramente no deserto que só se vestia da casca das árvores e só se alimentava com o que a mesma terra produz; para se conservar casto banhava-se várias vezes por dia e de noite, na água fria; resolvi imitá-lo”.

Mireille Hadas-Lebel vê nesta temporada no deserto junto a Bano, uma “tentação essênia” no jovem Josefo e chega mesmo a dizer, creio que sem maior fundamentação, que “somente uma estada entre os essênios pode explicar a abundância dos detalhes que ele nos dá tanto sobre a doutrina quanto sobre o seu modo de vida”; além de acrescentar que, embora o anacoreta Bano não seja conhecido a não ser por esta menção de Josefo, ele nos “faz irresistivelmente pensar em João Batista, que também vivia no deserto, vestido com uma túnica de pêlo de camelo, um cinto de couro ao redor da cintura, e se alimentava de gafanhotos e mel selvagem”.

Após estes três anos no deserto, Josefo volta a Jerusalém, provavelmente para se casar, e opta pela linha teológica farisaica, como nos diz ele em sua Autobiografia:

“Depois de ter passado três anos com ele, voltei, aos dezenove anos, a Jerusalém. Iniciei-me então nos trabalhos da vida civil e abracei a seita dos fariseus, que se aproxima mais que qualquer outra da dos estoicos, entre os gregos”.

Apesar de dizer que optou pelos fariseus, alguns especialistas defendem que Josefo é, na verdade, um saduceu. Só que após a guerra judaica, já em Roma, vivendo à sombra do Imperador, e acusado por seu rival judeu Justo de Tiberíades de ser anti-romano, Josefo diz ser adepto dos moderados fariseus.

3. A Viagem a Roma

No ano 64 d.C., com 26 anos de idade, Josefo vai numa embaixada a Roma para interceder junto a Nero por alguns sacerdotes judeus ali retidos não se sabe bem por que, já que Josefo é muito sucinto na sua Autobiografia:

“Na idade de vinte e seis anos fiz uma viagem a Roma, por esta razão. Félix, governador da Judeia, mandou por um motivo qualquer alguns sacrificadores, homens de bem e meus amigos particulares, para se justificarem perante o imperador; eu desejei, com muito entusiasmo, ajudá-los, quando soube que sua infelicidade em nada havia diminuído sua piedade e eles se contentavam em viver com nozes e figos”. Através da imperatriz Pompeia, esposa de Nero, Josefo obteve “sem dificuldade a absolvição e a liberdade daqueles sacrificadores por intermédio dessa princesa, que me deu grandes presentes, também, com os quais regressei ao meu país”.

O brilhante sucesso desta missão colocou Josefo em respeitável posição frente aos seus conterrâneos. Mas não é apenas este o efeito da viagem a Roma. O jovem aristocrata provinciano viu, pela primeira vez, a grandeza e o poderio de Roma, a maior e mais poderosa cidade do mundo de então. Isto vai influenciar sua avaliação da guerra que se seguirá. Diz o nosso personagem a propósito:

“Lá [em Roma] encontrei alguns espíritos inclinados às mudanças que começavam a lançar as raízes de uma revolta contra os romanos. Procurei dissuadir os sediciosos e lhes fiz ver, entre outras coisas, como tão poderosos inimigos lhes deviam ser temíveis, quer pela sua ciência na guerra, quer pela grande prosperidade e eles não deviam expor temerariamente a tão grande perigo suas mulheres, seus filhos e sua pátria”.




Fonte de pesquisa:
RIBEIRO JR., W.A. Flávio Josefo. Portal Graecia Antiqua, São Carlos.
Cadernos de Teologia n. 5 - FTCR da PUC-Campinas
Última atualização em Seg, 26 de Dezembro de 2011 13:23  

Que estilo mais revolucionou culturalmente o mundo ?
 
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